sábado, 30 de junho de 2012

Escolhi escrever

Hoje o Sol está brilhando o bastante para eu escrever um texto cheio de sonhos e amor. O céu está lindamente azul, quase que me dizendo “escreva sobre como é bom viver”, mas essas coisas dificultavelmente passam pela minha cabeça.
Já não ouço os pássaros quando ando por aí nas manhãs frias. Há quem diga que eu deva tirar um pouco a música dos meus ouvidos e apenas parar para apreciar o mundo em silêncio, mas só o que eu conseguiria ouvir seriam os carros e suas buzinas. Além disso, já há um grande silêncio dentro de mim, que grita por palavras bonitas e mais amor e mais paz e mais músicas e mais beleza em tudo, e se eu tirar a música provavelmente fique surda.
Eu prefiro simplesmente me esquecer, na maior parte dos dias, e continuar calada, porque se eu for abrir a boca as lágrimas vão cair e as cicatrizes vão aparecer, vou parecer tão louca e imbecil, e provavelmente as pessoas que me conhecem vão me achar tão outra pessoa que não vão entender nada e simplesmente ir embora. Ou não. Mas, bem, eu prefiro não arriscar.
Escolhi as palavras (mesmo que as tristes), porque você lê como se tudo estivesse bem. Alguém lê meus textos com um ar desesperado e gritando e chorando e com uma música triste, com olhos tristes e depois fica alguns instantes calado porque se perde nos sentimentos e mais sentimentos que havia guardado toda essa semana? Acho que não. O texto guarda palavras silenciosas que começam e acabam aqui. Sem olhares, abraços, lágrimas ou qualquer demonstração de preocupação ou dó.
As palavras podem ser tão fortes como o Sol e tão lindas como o céu azulado, mas elas pararão de brilhar na tua vista quando você simplesmente desistir de ler isso, desviar teu olhar pra algo mais interessante ou se cansar de ler os mesmos desabafos de sempre. O Sol está sempre aí, e não adianta querer fugir, porque ele vai aparecer amanhã de manhã e te obrigar a acordar. E se não for amanhã, será depois de amanhã. E até seu coraçãozinho não aguentar mais bater, e até você poder agradecer por finalmente não ter que ler mais nenhum livro chato com palavras cujo você se perde ou não entende o significado. Eu acho que seja assim com a maioria das pessoas. Mas talvez você se salve. Talvez goste do céu azul e consiga fazer músicas lindas sobre tudo isso aqui. Talvez você consiga usar as palavras de uma forma mais bonita do que eu. Bonitas no sentido de feliz, porque dizem que é bonito ser feliz. Mas visto que eu já não me importo muito com a beleza das coisas, eu já não me importo de não sair por aí com um sorriso e tirando fotos de paisagens floridas.
Talvez se tua voz for bonita você prefira cantar tuas felicidades ou tristezas e se torne famoso e amado. Talvez você viva momentos lindos e guarde todos na memória, componha músicas sobre eles e sinta menos saudade que eu. Quantas memórias minhas dariam uma história que alguém gostasse de ler? Acho que as palavras chamam menos atenção que “tchu tcha tchu tcha” ou sei lá qual é a ordem disso. Quantas frases você tem guardada na memória para recitar todos os dias pra si mesmo para conseguir aguentar mais um dia? Quantos livros você tem em casa e quais são suas palavras preferidas?
Acho que a maioria das pessoas prefere simplesmente ver um pôr-do-sol ao som de um violão. Eu também gosto disso, muito, mas há algo que me atormenta e provavelmente me faria ficar em silêncio torcendo para a luz não voltar a aparecer amanhã. E ia doer e fazer surgir frases na minha cabeça que eu esqueceria em uma hora, mas que me deixariam ansiosa para anotá-las em qualquer lugar e torcer para alguém achá-las e me olhar e sorrir, ou chorar, mas calados. Porque eu peguei essa mania de odiar que recitem minhas palavras alto. Acho que é isso: elas ficam vibrando por aí e nunca acabam, ou acabam, não sei ao certo como é a velocidade do som, mas sei que doeria e me deixariam no mínimo surda.
Acho que me viciei em palavras e silêncio. Meu silêncio. O mundo não para, não se cala, não descansa. Eu poderia passar as madrugadas sem andar ou fazer passos de ballet apenas para não ter que ouvir meus pés batendo levemente no chão. Não sei dizer se esse vício é pior ou melhor do que drogas. Não se sabe até que ponto escrever me faz feliz ou triste. Eu posso escrever uma carta para um amigo que vive em outro país e dar mil sorrisos ao saber que ela chegou e ele pode ler minhas palavras gritantes, mas eu posso escrever uma carta dizendo adeus a tudo, e nunca mais chorar, nem sorrir. Talvez eu devesse temer as palavras, mas prefiro simplesmente escrever. Provavelmente se eu as temesse, escreveria sobre isso. Mas eu não temo, e estou escrevendo sobre não ter medo algum de escrever letra por letra de um texto enorme como esse. E mesmo se as palavras terminarem de acabar comigo, eu não me arrependeria. Eu amo palavras. Assim como morreria por amar aquele alguém, morreria pelas palavras. Eu acho bonito. Não que eu me importe com a beleza, mas é bonito. Talvez as palavras não gritem, mas talvez sufoquem. Talvez as palavras dancem (e eu acho que dançam, você não vê?) e peguem teu pé de noite. Eu espero realmente conseguir escrever sobre toda dor e todo amor e ainda conseguir escrever adeus quando for a hora do adeus. E que isso se torne bonito, independente da palavra a ser escrita ou do tamanho do texto que ela formar, mais bonito que o Sol e o céu e as estrelas e a Lua e todas essas coisas que as pessoas acham bonito. E então vai valer a pena ter deixado de ver o pôr-do-sol para escrever um texto quando já não há mais luz no céu, enquanto eu me escondo das luzes da cidade. Acho que escrever é o vício mais bonito que tem.

sábado, 23 de junho de 2012

Vacina do "feliz para sempre"

Talvez minha mãe não tenha me dado as vacinas quando eu era nova. Ela sempre foi meio descuidada com isso mesmo. Talvez por isso eu já não respire tão bem quanto antes, nem sorria, nem escreva. Talvez a gente vá perdendo as coisas boas da vida com o tempo. Crescer é isso, não é? Mas acho que ainda não inventaram nenhuma vacina pra ser feliz para sempre.
Talvez o melhor remédio seja ficar um dia inteiro na varanda de alguma casa de campo respirando ar puro e ouvindo música clássica. Mas essa seria aquele tipo de vacina que você tem que tomar de tempos em tempos porque vai perdendo o efeito. A gente vai esquecendo que o Sol continua brilhando mesmo que fechemos a janela, e que as estrelas estão sempre dispostas a brilhar para nós, só temos que apagar um pouco as luzes da cidade, e que um simples piano pode nos acalmar mais que as “melhores” músicas das “melhores” cantoras que só conseguem cantar com playback. Só que eu não posso ir para uma casa de campo frequentemente tentar matar esse vírus da tristeza, porque eu tenho dever de casa para fazer, e querem que eu enfie isso goela abaixo, como se português fosse mais importante do que saúde. Saúde psicológica, sabe?
Ainda bem que as férias estão chegando. E eu vou poder abrir as cortinas, respirar com mais calma, e escrever em paz, ser feliz em paz, chorar em paz. Ou o que seja. Porque talvez eu deva simplesmente ser forte o bastante para ser feliz sem nenhum remédio.  

sábado, 16 de junho de 2012

All I wanted was you

Tudo que eu queria era você. Mas eu fui esquecida, abandonada, trocada, já nem sei. Largada no escuro carregando um peso enorme: o amor. Ignorada, mal-amada por tantos. Me deixaram chorando, num canto, no escuro, só torcendo pra alguém vir acender as luzes e me convencer de que foi só um pesadelo. Ninguém veio. Escondendo a solidão com Arctic Monkeys, livros e cabelos ruivos. Matando a carência com “eu não preciso de ninguém”, chegando em casa tarde só pra tentar mostrar pra ti que ainda sei ser feliz (mas de que adianta ir pra festa e voltar com o coração vazio? Caio F. Abreu). Escrevendo nas paredes brancas para preencher o vazio (no te quedes com tu nombre escrito em la pared...), escondendo as cicatrizes com mangas compridas, como se eu já não soubesse que as que mais ardem são as mais profundas, que ficam no coração. Cantando como se não houvesse amanhã ao mesmo tempo que torço para que realmente não haja. Derrubando arvores só pra fingir que isso tudo me rendeu uma boa história, e dizendo que vale a pena amar, apesar dos apesares. Não vale.
All I wanted was you e olha o que eu ganhei: vários motivos para chorar, dó de mim, saudade e esses textos repetitivos. E talvez, somando tudo isso, um grande nada.

terça-feira, 12 de junho de 2012

(Feliz) Dia dos Namorados

E no meio de todas essas atualizações de status e reclamações e carências e buquês de flores, aqui estou eu com meu texto de Dia dos Namorados.
Hoje eu poderia sair por aí louca por alguém, passar o dia escrevendo sobre o quanto queria ter alguém especial, o quanto queria que ele voltasse de surpresa. Podia passar o dia reclamando e choramingando por aí. Mas aqui estou eu, escrevendo a verdade sobre este dia tão... Desnecessário.
É engraçado como um dia como os outros consegue mudar o nosso humor. Acho interessante como um dia que o sistema capitalista inventou pra gente comprar ursinhos de pelúcia segurando corações e flores que morrerão em alguns dias faz com que choremos sozinhas num quarto abraçada com o nosso ursinho de pelúcia que mamãe deu. Não que eu faça isso. E não que você deva fazer.
A verdade é que o mês do amor é Setembro. A primavera, as músicas e poemas sobre o mês em que ele se foi. Ah, como espero por este mês! Hoje é apenas um dia em que os buquês de flores estarão em todos os lugares, as vitrines cheias de corações e filmes de amorzinho passando na Sessão da Tarde. Mas isso passa. Daqui alguns dias as flores murcham, as vitrines mudam e Lagoa Azul já vai estar passando no seu horário normal da TV.
E Setembro vai demorar um pouco ainda, mas logo chegará o mês das musiquinhas amorzinhos e das cartas e da saudade e de escrever sobre todas as coisas que devem ser escritas em Setembro, ou que já foram.
E chega de amor por hoje, gente. Bora ser feliz.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

As palavras me acertam como facadas no peito. Sangra. Escrever uma carta de amor nunca se tornou tão difícil, e as histórias trágicas nunca pareceram tão reais. Escrever sobre as estrelas ou sobre meninas solitárias que moram em cidades pequenas e esperam algum lugar que caiba seus sonhos não parece o bastante.
Cuspia restos de amores, desamores e tudo o que já se foi há muito tempo, mas não passou. Vomitava amor. Quando as estrelas não trazem inspiração o bastante, o que é que a gente faz? Quando o sono só te traz melancolia e já não palavras lindas que você se arrepende de ter escrito, quando você passa 40 minutos pra escrever algumas linhas e não consegue prever um final pra isso, quando você olha pra tua parede branca a espera de algum transe hipnótico que te faça escrever como no Romantismo, quando o miado do teu gato preto parece mais poético do que as 10 linhas que você escreveu até agora com bobagens. É assim que começa a rachar? Por que no frio, há dias que eu trocaria um abraço por uma caneta de penas, uma caligrafia magnífica e uma página em branco. Infelizmente, eu não tenho nenhum dos dois, e já não encontro as palavras certas pra dizer que aqui dentro está realmente congelando, e casaco não resolve.
Como a gente faz pra ficar leve de novo pras palavras conseguirem te fazer viajar e sentir e chorar e amar? Como é que a gente faz pra tirar as histórias que nos assombram nas madrugadas de debaixo da cama e simplesmente deixar que elas bailem pela sala e caiam no papel? Onde a gente vai pra achar alguma palavra nova?
Talvez eu deva apenas passar uns dias lendo o dicionário. Talvez palavras sejam sorrisos e eu deva simplesmente aprender algumas palavras novas.  

domingo, 3 de junho de 2012

Poetizando Platão

Para Platão, amor significava anseio de voltar à verdadeira morada da alma.
Eu poderia te meter no meio disso e dizer que meu amor é exatamente isso: anseio de voltar pra ti, que, por muito tempo, pareceu o lugar certo pra mim. Mas não.
Talvez o amor seja isso mesmo, vontade de voltar pra algum lugar do qual não se sabe ao certo onde é. Talvez essa saudade que se sente seja algo muito maior do que falta de alguém que não lembra mais teu nome. Talvez eu possa resumir minha vida num grande eros. “Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.” Sim, Woody Allen, acho que sim.
Acho que isso tudo é apenas um grande amor sem fim e eu deva continuar procurando minha verdadeira morada da alma.
Platão diria que ela é o Mundo das Ideias e que cedo ou tarde voltarei pra lá. Eu não tenho nada a dizer sobre isso, apenas espero. O que, aliás, é só o que tenho feito todo esse tempo.
“A alma experimenta, portanto, um “anseio amoroso” de retornar à sua verdadeira morada. A partir de então, ela passa a perceber o corpo e tudo o que é sensorial como imperfeito e supérfluo. Nas asas do amor, a alma deseja voar “de volta para casa”, para o mundo das ideias. Ela quer se libertar do cárcere do corpo."
É, acho que é isso.